Atualmente, considera-se que a Fenomenologia surgiu no início do século XIX com os estudos sobre a intencionalidade por Franz Brentano (1983-1917), e um dos seus marcos foi a publicação da obra “Investigações Lógicas” (1900/1901) por Edmund Husserl (1859-1938). Nessa obra, Husserl buscou contrapor-se ao naturalismo ao não tomar o mundo como algo dado e externo ao sujeito.
Vamos a um exemplo prático dessa tese: pense no objeto “maçã”. Que cor ela tem? Qual é a sua textura? Qual é o seu gosto? Ela tem cabo? Folhas? Essa maçã está situada numa árvore, em uma mesa, em uma sacola com personagens da “Turma da Mônica”? Quando você pensa em maçã, você lembra de algum prato que leve essa fruta?
Percebe que são várias as perguntas que podem ser feitas sobre um mesmo objeto? Percebe também que cada pessoa pode responder a essas e a outras perguntas sobre o mesmo tema de uma forma diferente? Se a sua resposta foi sim para as duas últimas questões, provavelmente você compreendeu algo que o Husserl tentou nos ensinar em “Investigações Lógicas”: o mundo não está dado e nem pronto. Pelo contrário, o mundo é percebido por um indivíduo e pode adquirir significado a partir da percepção que essa pessoa tem sobre ele.
O mundo não é passivo, mas relacional. A experiência que um indivíduo tem com o mundo – ou, tal qual no exemplo, com a maçã- pode mudar ao longo da sua vida a depender da fase de desenvolvimento que a pessoa está (infância, adolescência, vida adulta, velhice), do ambiente em que essa pessoa se encontra (se em casa, no trabalho, nas aulas do Mestrado etc), das pessoas que a circundam e de uma infinidade de fatores.
Porventura, cercado por essas e tantas outras questões filosóficas, Husserl encontrou no método descritivo um modo de auxiliar os futuros fenomenólogos a compreender como cada pessoa se relaciona com o vivido.
Diante disso, podemos inferir que a fenomenologia husserliana tem um caráter descritivo, ou seja, busca descrever a experiência tal qual ela foi vivida pelo sujeito. A isto chamamos “voltar às coisas mesmas” – e para tal, precisamos suspender o conhecimento prévio que temos sobre o fenômeno ou, no exemplo citado acima, sobre a maçã- para desvelar a doação de sentido que damos a ele.
Esse movimento de voltar às coisas mesmas é tematizado por Husserl como “redução fenomenológica” e é um movimento regressivo muito utilizado em terapias de base fenomenológicas e existenciais. Por meio dele, pode-se acessar como o indivíduo se relaciona com o momento vivido e quais significações ou valores ele atribui a experiência que está passando. Assim sendo, o modo como doa-se sentido àquilo que foi vivido não é natural e nem universal (não é igual para todo mundo).
Dessa forma, quando te é pedido para pensar em uma maçã e você pensa em uma maçã verde, cortada em nove pedaços, caramelada e embalada em uma caixa de papel tal qual as maçãs da “Mary Ann Apple Factory”, isso não é gratuito. Isso vem da sua experiência psíquica concreta, do modo como aquela experiência se abre para você e como as contingências materiais articulam essa possibilidade de experimentação.
*Esse texto tem caráter ilustrativo e didático e busca aproximar o leitor a compreensões filosóficas extremamente rigorosas. Dessa forma, ele não deve ser considerado para além do seu fim.
